Sistema de Equações do 1º Grau: Substituição e Adição

Sistema de Equações do 1º Grau: Substituição e Adição

Por que uma equação com duas incógnitas não basta, como resolver por substituição e por adição, e como montar o sistema a partir de um problema.

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Um sistema de equações é um conjunto de equações que precisam ser verdadeiras ao mesmo tempo. Resolver é encontrar os valores que satisfazem todas de uma vez. Com duas incógnitas, há dois métodos principais: substituição, que isola uma incógnita e a troca na outra equação, e adição, que soma as equações para eliminar uma delas.

No Short Quanto custa a caneta?, o desafio do canal era este: um caderno e uma caneta custam juntos R$ 11, e o caderno custa R$ 10 a mais que a caneta. Quanto custa a caneta? A resposta que vem primeiro — R$ 1,00 — está errada. E o motivo do erro é exatamente o que um sistema existe para evitar.

O que você vai ver

Por que a resposta rápida falha?

Se a caneta custasse R$ 1,00, o caderno custaria R$ 10,00, e a soma daria R$ 11. Parece certo. Mas a diferença entre os dois seria de R$ 9, não de R$ 10.

A resposta intuitiva satisfaz uma condição e ignora a outra. É um erro tão comum que virou objeto de estudo: o psicólogo Shane Frederick usou a versão americana do problema — um taco e uma bola que custam juntos US$ 1,10 — no seu teste de reflexão cognitiva (Frederick, 2005). Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, conta que mais da metade dos estudantes de Harvard, MIT e Princeton deu a resposta intuitiva, e errada.

Não é falta de inteligência. É que o problema tem duas condições, e a intuição só checa uma. O sistema é a ferramenta que obriga a checar as duas.

Por que uma equação só não basta?

Chame o preço da caneta de $c$ e o do caderno de $d$. A primeira condição vira $c + d = 11$. Mas essa equação, sozinha, tem infinitas soluções:

Caneta $c$ Caderno $d$ $c + d$ Diferença $d - c$
1,00 10,00 11 9
2,00 9,00 11 7
0,50 10,50 11 10
5,50 5,50 11 0

Todas as linhas somam 11. Só uma tem diferença 10 — e é a segunda condição, $d = c + 10$, que a escolhe. Duas incógnitas pedem duas condições independentes. Com uma só, o problema fica em aberto.

Há também um jeito visual de ver isso. Cada equação do 1º grau com duas incógnitas é uma reta, como você vê em função afim: todos os seus pontos são soluções dela. A solução do sistema é o ponto que está nas duas retas ao mesmo tempo — o cruzamento.

Como resolver pelo método da substituição?

A ideia: isolar uma incógnita numa equação e trocar essa expressão na outra. Assim sobra uma equação com uma incógnita só, que você já sabe resolver.

$\begin{cases} c + d = 11 \\ d = c + 10 \end{cases}$

A segunda equação já entrega $d$ isolado. Substituindo na primeira:

$c + (c + 10) = 11 \quad \Rightarrow \quad 2c + 10 = 11 \quad \Rightarrow \quad 2c = 1 \quad \Rightarrow \quad c = 0{,}5$

Voltando com $c = 0{,}5$ em $d = c + 10$, o caderno custa $d = 10{,}5$.

Conferindo nas duas equações: $0{,}50 + 10{,}50 = 11$ ✓ e $10{,}50 - 0{,}50 = 10$ ✓. A caneta custa R$ 0,50.

Cada passo dessa conta é o mesmo de uma equação do 1º grau: o que se faz de um lado da igualdade, se faz do outro. O sistema não traz regra nova — só uma etapa a mais antes.

Como resolver pelo método da adição?

A ideia: somar as duas equações de um jeito que uma incógnita desapareça.

Por que isso é permitido? Porque cada equação diz que duas coisas são iguais. Somar coisas iguais a coisas iguais mantém a igualdade. No vídeo sobre como resolver qualquer equação, o professor Gabriel lembra que esse princípio está escrito há mais de 2.300 anos, nos Elementos de Euclides:

"Se iguais forem somados a iguais, os resultados são iguais." — Euclides, citado pelo Prof. Gabriel Gonzalez

Um exemplo: carros e motos

Um estacionamento tem 30 veículos, entre carros e motos, e 100 rodas ao todo. Quantos carros há?

Com $c$ carros (4 rodas cada) e $m$ motos (2 rodas cada):

$\begin{cases} c + m = 30 \\ 4c + 2m = 100 \end{cases}$

Para eliminar $m$, multiplique a primeira equação inteira por $-2$:

$-2c - 2m = -60$

Agora some com a segunda, termo a termo:

$(4c + 2m) + (-2c - 2m) = 100 + (-60) \quad \Rightarrow \quad 2c = 40 \quad \Rightarrow \quad c = 20$

Logo $m = 30 - 20 = 10$.

Conferindo: $20 + 10 = 30$ veículos ✓ e $4 \cdot 20 + 2 \cdot 10 = 80 + 20 = 100$ rodas ✓. São 20 carros.

Quando as duas equações precisam ser ajustadas

Às vezes nenhum coeficiente se cancela de primeira. Aí você multiplica as duas equações:

$\begin{cases} 3x + 2y = 16 \\ 2x - 3y = -11 \end{cases}$

Multiplicando a primeira por 3 e a segunda por 2, os termos em $y$ ficam opostos:

$\begin{cases} 9x + 6y = 48 \\ 4x - 6y = -22 \end{cases}$

Somando: $13x = 26$, então $x = 2$. Na primeira equação original, $3 \cdot 2 + 2y = 16$ dá $2y = 10$, logo $y = 5$.

Conferindo na equação que não foi usada para achar $y$: $2 \cdot 2 - 3 \cdot 5 = 4 - 15 = -11$ ✓.

Erro comum

Multiplicar só parte da equação. Quem multiplica $c + m = 30$ por $-2$ e escreve $-2c - 2m = 30$ — esquecendo o lado direito — desequilibra a igualdade. É o mesmo erro que o professor mostra no vídeo sobre equações: multiplicar "o prato pela metade". A equação inteira é multiplicada, os dois lados, todos os termos.

Substituição ou adição: qual escolher?

As duas chegam ao mesmo resultado. A escolha é sobre qual dá menos trabalho e menos chance de erro.

Situação Melhor método Por quê
Uma incógnita já está isolada ou tem coeficiente 1 Substituição Isolar não cria frações
Os coeficientes de uma incógnita são opostos ($2y$ e $-2y$) Adição Somar já elimina
Nenhum coeficiente ajuda Adição, multiplicando antes Evita frações no meio da conta

No problema da caneta, a substituição era natural: $d = c + 10$ já vinha pronta. No estacionamento, a adição ganhava: bastava um fator $-2$.

Como montar o sistema a partir de um problema?

Em prova, o sistema quase nunca vem escrito. Ele vem em português, e o trabalho é a tradução — o mesmo processo de interpretar questões de matemática:

  1. Dê nome às incógnitas com letras que lembrem o que são: $c$ para carros, $i$ para inteiras.
  2. Escreva uma equação por condição. Cada frase do tipo "ao todo", "a soma", "a mais" costuma virar uma equação.
  3. Confira a contagem: duas incógnitas pedem duas condições diferentes.

Um teatro vendeu 200 ingressos, entre inteiras de R$ 40 e meias de R$ 20, e arrecadou R$ 6.400. Quantas meias foram vendidas?

$\begin{cases} i + m = 200 \\ 40i + 20m = 6400 \end{cases}$

A segunda equação inteira pode ser dividida por 20 — repartir os dois lados em partes iguais também mantém a igualdade:

$2i + m = 320$

Agora multiplique a primeira equação por $-1$ e some com esta — o mesmo que subtraí-las, com menos risco de errar sinal: $(2i + m) + (-i - m) = 320 - 200$, e sobra $i = 120$. Logo $m = 80$.

Conferindo: $120 + 80 = 200$ ingressos ✓ e $40 \cdot 120 + 20 \cdot 80 = 4800 + 1600 = 6400$ reais ✓. Foram 80 meias.

Dica

Antes de resolver, releia a pergunta. Ela pedia as meias, não as inteiras. Resolver o sistema e responder a incógnita errada é um dos erros mais caros de prova — e o 120 certamente estaria entre as alternativas.

E quando o sistema não tem solução, ou tem infinitas?

Nem todo sistema tem exatamente uma resposta. A classificação aparece muito em concurso:

Tipo O que acontece na conta Retas Exemplo
Possível e determinado Sai um valor para cada incógnita Se cruzam em um ponto Todos os exemplos acima
Impossível Sobra uma falsidade, como $0 = 2$ Paralelas, nunca se cruzam $x + y = 4$ e $x + y = 6$
Possível e indeterminado Sobra $0 = 0$ São a mesma reta $x + y = 4$ e $2x + 2y = 8$

O impossível tem uma leitura direta: duas quantidades não podem somar 4 e 6 ao mesmo tempo. Subtraindo uma equação da outra, sobra $0 = 2$ — e a conta está avisando que a pergunta não tem resposta.

O indeterminado é o caso em que a segunda equação é só a primeira multiplicada por 2. Ela não acrescenta condição nova, e o problema volta a ter infinitas soluções, como a tabela da caneta antes da segunda condição.

Como resolver sistema com frações?

Multiplique cada equação pelo MMC dos seus denominadores antes de qualquer outra coisa. As frações somem e o sistema vira um dos casos acima.

$\begin{cases} \dfrac{x}{2} + \dfrac{y}{3} = 4 \\ x - y = 3 \end{cases}$

O MMC de 2 e 3 é 6. Multiplicando a primeira equação inteira por 6: $3x + 2y = 24$. Da segunda, $x = y + 3$. Substituindo:

$3(y + 3) + 2y = 24 \quad \Rightarrow \quad 5y + 9 = 24 \quad \Rightarrow \quad y = 3$

Logo $x = 6$. Conferindo na equação original, com as frações: $\frac{6}{2} + \frac{3}{3} = 3 + 1 = 4$ ✓ e $6 - 3 = 3$ ✓.

Erro comum

Multiplicar as frações e esquecer o lado direito. Quem escreve $3x + 2y = 4$, em vez de $= 24$, chega a $x = 2$ e $y = -1$. A conta segue perfeita até o fim — e só a conferência na equação original denuncia: $\frac{2}{2} + \frac{-1}{3} = \frac{2}{3}$, não 4.

E com três incógnitas?

O princípio é o mesmo: eliminar uma incógnita de cada vez até sobrar uma. O método organizado para isso é o escalonamento, explicado em detalhe na aula o melhor método para resolver sistemas lineares, do canal. Para ENEM e a maioria dos concursos, porém, os sistemas de duas incógnitas são o que mais aparece.

Os erros mais comuns

  1. Responder só uma das incógnitas — ou a errada. A pergunta pedia as meias; o sistema também entrega as inteiras.
  2. Multiplicar só parte da equação. Os dois lados, todos os termos.
  3. Errar o sinal ao subtrair equações. Prefira multiplicar por $-1$ e somar: é a mesma conta, com menos chance de esquecer um sinal.
  4. Conferir só na equação usada para isolar. Ela é satisfeita automaticamente. A conferência que pega erro é na outra.
  5. Traduzir "a mais" como "vezes". "R$ 10 a mais que a caneta" é $c + 10$, não $10c$.
  6. Escrever a mesma condição duas vezes. Duas equações que dizem a mesma coisa não resolvem o problema.

Onde isso entra na sua base

Sistema de equações é a continuação direta da equação do 1º grau, e vem antes da do 2º grau. É a ordem que o professor Gabriel recomenda no vídeo sobre a ordem certa para estudar matemática do zero:

"Na sequência você aprende a resolver a equação do primeiro grau, aprende a resolver sistema simples e aprende a resolver equação do segundo grau." — Prof. Gabriel Gonzalez

Se manipular a equação ainda trava, volte à álgebra do zero. O passo seguinte é a equação do 2º grau por soma e produto — que, aliás, é um sistema disfarçado: duas raízes, uma soma e um produto.

No ENEM, os sistemas raramente aparecem como "resolva o sistema". Eles chegam vestidos de preços de dois produtos, ingressos de dois tipos, misturas, veículos e rodas. Veja onde eles entram na ordem de estudo em o que mais cai em matemática no ENEM.

Perguntas frequentes

O que é um sistema de equações do 1º grau? É um conjunto de equações do 1º grau que precisam ser verdadeiras ao mesmo tempo. A solução é o valor de cada incógnita que satisfaz todas as equações juntas.

Qual é o método mais fácil para resolver sistemas? Depende do sistema. Se uma incógnita já está isolada ou tem coeficiente 1, a substituição é mais curta. Se os coeficientes de uma incógnita são opostos, ou podem ficar opostos com uma multiplicação, a adição é mais rápida.

Como saber se o sistema tem solução? Resolva normalmente. Se a conta terminar em uma falsidade, como $0 = 2$, o sistema é impossível. Se terminar em $0 = 0$, tem infinitas soluções. Se sair um valor para cada incógnita, tem solução única.

Como resolver sistema de equações com frações? Multiplique cada equação inteira, os dois lados, pelo MMC dos seus denominadores. As frações desaparecem e o sistema pode ser resolvido por substituição ou adição.

Sistema de equações cai no ENEM? Sim, mas quase sempre disfarçado em situações do cotidiano: preços, ingressos, quantidades e misturas. O trabalho maior costuma ser montar as duas equações a partir do texto.

Conclusão

Um sistema é só uma forma de obrigar a resposta a respeitar todas as condições ao mesmo tempo — exatamente o que a intuição esquece no problema da caneta. Substituição e adição são dois caminhos para o mesmo lugar, e os dois se apoiam no princípio de qualquer equação: o que se faz de um lado, se faz do outro.

Monte as equações com calma, resolva pelo método que dá menos trabalho e confira sempre na equação que você não usou. É essa conferência que transforma R$ 1,00 em R$ 0,50.

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